O texto “Inocente portadores” é de autoria do jornalista José Escarlarte:

Um belo dia, encontro no cafezinho da Câmara Federal o então deputado Ruy Santos, um baiano bonachão, boa praça, que gostava de conversar e de gozar os jornalistas. Ele me disse que estava apresentando um projeto de lei que entraria na Ordem do Dia sobre os nomes absurdos que eram levados pelos pais aos cartórios de registro.
Seu desejo era o de fazer com que esses nomes, que em muitos casos poderiam levar as pessoas ao ridículo, fossem contidos a todo custo pelo oficial de registro. Ruy Santos citou o caso do ex-deputado Epílogo de Campos.
“Aqui, tivemos entre nós o deputado Epílogo de Campos. Seu pai achou de dar aos seus filhos nomes da sua simpatia: Prólogo, Soneto, Ementa”. Foi quando nasceu o filho, que esperou fosse o último. E não titubeou: Epílogo. Mas para surpresa sua, entretanto, dois anos depois adveio uma menina. Surpreso, o pai não titubeou. Deu-lhe o nome de Errata. Errata de Campos.

No Rio Grande do Norte, Jerônimo Rosado, político conhecido e homem de largas posses queria ter muitos filhos. E a prolificidade da mulher nordestina sempre foi reconhecida. Nascidos os filhos, a todos deu o seu prenome: Jerônimo Primeiro Rosado, Jerônimo Segundo Rosado, Jerônimo Terceiro, etc. Acontece que, a partir de um número avantajado de rebentos, Jerônimo Rosado resolveu trocar o ordinal em português, substituindo-o pelo numeral em francês. Daí surgiram o Dix-Sept Rosado, que foi governador do Estado e faleceu em decorrência de desastre de avião, o deputado e senador Dix-Huit Rosado e o também deputado Vingt Rosado. Gozador como sempre, o deputado Ruy Santos ainda brincou que, só ficaram fora da lista o treze e o vinte e quatro.

O escritor Álvaro Moreyra encontrou vários nomes esquisitos na lista de beneficiários do falecido Instituto dos Indústriários, como Um Dois Três de Oliveira Quatro, Olindo Barba de Jesus, José Casou de Calças Curtas, Dezecêncio Feverecêncio de Oitenta e Cinco, João Cólica, Antônio Dodói, Inocêncio Coitadinho Sossegado de Oliveira, e uma mocinha que, mais tarde, conseguiu reverter a inspiração do pai. Seu nome era Graciosa Rodela. Lembrou também ter havido um Oceano Atlântico Linhares, armazenista do extinto Ministério de Viação e Obras Públicas.
Pesquisadores garantem ter um Raimundo Raio da Estrada de Ferro Brasileira, no Ceará, um Himeneu Casamentício das Dores Conjugais, em Porto Alegre. O advogado Washington Bolívar de Brito, de Brasília, encontrou nomes como Calicanto Querido, Danilo de Cadê Negócio, Amim Amou, Tranquilo Serafim.

Envereda também para o lado dos pseudônimos, que classifica como um disfarce, como uma fuga da própria personalidade. Diz que até Machado de Assis usou pseudônimos, lembrando que o escritor Paulo Barreto era o conhecido João do Rio. Alceu Amoroso Lima, o célebre Tristão de Ataíde. Até Moliére assumiu o nome de Jean Baptiste Poquelin.

Depois de declinar nomes como Cafiaspirina de Melo, João Cara de José, Adão Kodak, Vitorino Carne e Osso, Manuelina Terebentina Capitulina do Amor Divino, Maria Panela, Oceano Pacífico, Maria Passa Cantando, o parlamentar lembra o escritor Carlos Drummond de Andrade, que salientava que “esses nomes tornam infelizes seus inocentes portadores, pois os receberam no Registro Civil quando ainda não podiam reagir”. Drummond, mostrando-se revoltado, adianta que “é triste chamar-se como o pai decidiu, em hora de burrice especial”. O projeto foi aprovado.