A história contada pelo veterano e competente jornalista Milton Parron é deliciosa:

Por falar em Ernesto Geisel me vem a memória uma das dezenas de situações inusitadas que vivi com meu saudoso operador de externa, Natal Baldini. Estávamos em Capuava para cobrir a visita do presidente Castelo Branco (1965) àquele polo petroquímico. Chegamos bem antes da solenidade para que Baldini pudesse montar no palanque a parafernália técnica, processo demorado naqueles tempos em que a gente dependia de linhas telefônicas, não havia Internet, nem satélites de comunicações.

Meu operador alojou o amplificador num canto do palanque e, a certa distancia, no centro, o microfone com pedestal. Para saber se o som estava chegando ao estúdio da Jovem Pan, na avenida Miruna, ele ia ao microfone e chamava durante 1 ou 2 minutos: “alô Chico Vieira, alô Chico, alô Jovem Pan aeroporto, alô SP, me dá um retorno”. Ato contínuo, voltava ao local onde estava o amplificador e colocava o fone no ouvido esperando o retorno. Fez isso umas dez vezes, sem sucesso. Já cansado de tantas idas e vindas, abreviou seu trabalho pedindo a uma das pessoas, já presentes em grande número, que falasse “alô, alô” no microfone para que ele pudesse constatar se o aparelho estava ou não funcionando.

Como a pessoa estava fardada, não teve dúvidas: “seo guarda dá um alô aí no microfone, faz favor”. Para ele todo fardado era guarda. Ocorre que aquele fardado não era guarda civil, era general de Divisão, e chefe da Casa Militar do governo Castelo Branco, chamava-se Ernesto Geisel. Os circunstantes riram disfarçadamente, eu quase tive um infarto e o general Geisel sem demonstrar qualquer constrangimento simplesmente atendeu o que lhe fora solicitado: “alô, alô”, o suficiente para que meu operador Natal Baldini soubesse que o microfone estava funcionando, o problema era de má vontade na central técnica. Que saudades do meu companheiro de tantas jornadas, que saudades de um rádio que ficou lá atrás.